terça-feira, 13 de abril de 2010

Os meus passatempos

Sou uma criatura simples, que se diverte com pequenas coisas, sem importância. Os gatos, por exemplo, correm desvairados atrás de um insignificante novelo de lã. Eu não sou como eles, não me interesso por novelos de lã, e gosto, ainda menos, de correr. Mas consigo entreter-me com coisas igualmente triviais. Sou, afinal, uma criatura simples.
Hoje, por exemplo, andava pela rua, nem nada para fazer. O dia estava feio, não dava para procurar raios de sol, por entre as frinchas das suas portas, e já não me restava milho, para dar aos pombos.
No momento em que me preparava para andar ao pé-cochinho, ou para voar, de mansinho, por cima de algumas poças, que se começavam a formar, depois dos aguaceiros do início da tarde, tocou-me o telefone.
Olhei, e vi que se tratava de um número desconhecido.
Fiquei satisfeito, e com curiosidade. De quem se trataria?
Atendi.
"Estou a falar com o Doutor Francisco Gomes?", perguntou um senhor, do outro lado da linha.
O homem tinha razão. Eu chamo-me, de facto, Francisco Gomes. É natural. Afinal, estavam a tentar ligar para o meu número. Mas resolvi prolongar a conversa, e respondi:
"Quem é que está a falar?"
O homem prosseguiu a sua conversa:
"Daqui fala do Barclays Bank. Esta conversa está a ser gravada, para sua própria segurança".
Oh!! A excitação! Uma conversa gravada! E para minha segurança!
Resolvi aproveitar tamanha honra, e tentar prolongar o diálogo:
"Mas porque é que está a telefonar?"
O homem do Barclays prosseguiu:
"Estou a telefonar porque o Doutor Francisco Gomes possui uma conta, com um valor de 6 euros, a descoberto, Gostaríamos de saber quando é que o Doutor Francisco Gomes pretende resolver a situação. "
Oh! Um benfeitor, preocupado com a minha situação financeira. Fiquei comovido, mas achei, por bem, não preocupar o meu novo amigo, uma vez que eu não tinha dinheiro para pagar a minha avultada dívida de 6 euros. Por isso, resolvi "chutar para canto", como se diz em gíria futebolística:
"Mas o senhor não está a telefonar para o Doutor Francisco Gomes"
O homem do Barclays pareceu ficar verdadeiramente surpreendido:
"Como? Mas este não é o 968920304, etc....?"
"É, sim senhor!", respondi-lhe.
"Então, este é o número do Doutor Francisco Gomes! Só pode ser ele, até porque sabemos que ele esta em Portugal, porque sabemos que ele fez um levantamento, por multibanco, há 3 horas atrás, no Largo dos Telheirinhos, e sabemos que ele foi jantar, ontem, à Tasca da Assunção, e comeu peixe grelhado!".
Mantive-me imperturbável. A partir daqui, descreverei o diálogo, sem interrupções.
"Tudo isso pode ser verdade, mas eu não sou o Doutor Francisco Gomes".
"Então estou a falar com quem?"
"Com o Donald"
"Quem?"
"O Donald. O Pato Donald"
"Que disparate vem a ser este?"
"Não é disparate nenhum. Sou o Pato Donald"
"Não entendo, caro Doutor Francisco..."
"Oiça, amigo, já disse que não me chamo Francisco, nem sou Doutor. Eu sou o Pato. Donald".
"Isso é uma parvoíce. Oiça, a chamada está a ser...."
"Quac"
"O quê?"
"Quac"
"Não entendo..."
"Quac. Está a ver?"
"Estou a ver o quê?"
"Eu disse Quac. Sou um pato. E conhece muitos patos que falem?"
"Bem...não..."
"Eu também não. Um dos únicos patos conhecidos, que falam, é o Pato Donald. Por isso, sou o Pato Donald".
"Isso é um absurdo..."
"Porquê?"
"O Pato Donald não existe..."
"Como é que não existe? Nunca viu imagens dele? Vestido de marinheiro, com um chapéu, e..."
"Sim, eu sei, mas ele apenas existe em cinema, em desenhos animados"
"Mentira. O senhor nunca foi à Eurodisney?"
"Por acaso já fui, e...."
"E não viu lá o Pato Donald, a acenar às pessoas, e a dar rebuçados às crianças?"
"Sim..."
"Era eu!"
"Isso é idiota! Tratava-se de uma pessoa vestida de Pato Donald..."
"idiota é o que o senhor está a dizer! Quem é que, no seu perfeito juízo, se veste de pato?"
"Ninguém..."
"Aí está! Ninguém! Ninguém se veste de pato, porque isso vai contra o senso comum, e as regras de bom senso e de etiqueta da nossa sociedade! Como tal, existe um Pato Donald, de carne e osso!"
"Seja...seja....mas isso não quer dizer que eu esteja a falar com o Pato Donald".
"Aí, voltamos à primeira parte da conversa. O senhor já reparou que eu faço Quac!"
"Hum...sim...."
"ou seja, sou um pato"
"pois..."
"Além disso, eu falo, pois estou a conversar com o senhor"
"certo...."
"conhece outros patos que falem?"
"sei lá....o Huguinho, o Zezinho e o Luisinho?"
"Mas esses são crianças....parece-lhe que eu tenho voz de criança?"
"Não...."
"Então sou adulto...sou o Pato Donald...."
"Seja como for....eu queria falar com o Doutor Francisco Gomes, e...."
"Pois, mas daqui não fala o Doutor Francisco Gomes...."
"Não?"
"Caro senhor do Barclays, tem aí a foto do Doutor Francisco Gomes?"
"Tenho..."
"E a cara dele, assemelha-se, de algum modo, à de um Pato?"
"Não...."
"Então o Doutor Francisco não é um Pato e, como tal, não está a falar com ele...."
"bem....sabe a que horas é que posso contactar o Doutor Francisco Gomes?"
"Não sei...eu sou o Pato Donald, não sou secretário, ou telefonista"
"bem, desculpe a maçada, então...tenha uma boa tarde"
"olhe, oiça..."
"sim?"
"eu tenho um tio muito rico. Acha que ele pode abrir uma conta no Barclays?"
"Com certeza!!! Qual é o nome do seu tio? Diga-me tudo, senhor pato! que digo? Doutor Pato Donald!! Qual é mesmo o nome do seu tio?

1 comentário:

Post-It disse...

:D (assim muitos se safam...com imaginação...só não enganam ninguém :p)
bom texto!